Somos musicais

Graham F. Welsh, professor de Educação Musical, Instituto da Educação, Universidade de Londres (www.isme.org). Tradução do Inglês por Etelvina Pereira, Dra.

[ “Nós somos musicais: é parte do nosso desígnio humano básico.” ]

Em certo sentido, parece bizarro que nos peçam para sermos “defensores” da Música e da Educação Musical pois ambas têm uma omnipresença que se estende à espécie humana. Nós somos musicais: é parte do nosso desígnio humano básico. O cérebro humano tem áreas especializadas cujas funções primordiais trabalham em conjunto para o processamento musical. Somos, também, musicalmente educados, no sentido de que adquirimos comportamentos musicais sofisticados desde a fase pré-natal passando pela experiência da cultura em que nos inserimos.

Não precisamos de uma educação musical formalizada para nos envolvermos intencionalmente com a música e para exibir comportamentos musicais. A educação musical informal está sempre a acontecer porque a experiência do som organizado é um elemento chave no nosso quotidiano. O nosso padrão neuropsicobiológico permite-nos fazer sentido dos e encontrar significado nos padrões de som que são organizados como música dentro da nossa cultura.

Contudo, apesar desta propensão humana para o comportamento musical e do nosso desejo de nos envolvermos numa actividade musical (seja como produtores ou ouvintes), é óbvio que não somos musicalmente idênticos. Conforme vamos envelhecendo, há um crescente envolvimento com a música que depende, em parte, da preferência individual, do contexto para ouvir ou apreciar a música, da disponibilidade de estilos e géneros musicais e também da nossa percepção e rotulação emocional de experiências musicais anteriores – o que molda a medida em que nos vemos como “musicais”. De facto, pode haver alguns indivíduos que pareçam ter um distúrbio congénito no que diz respeito à música e que encontrem pouco sentido ou pouco prazer na actividade musical.

Mas, para a grande maioria, a música é parte integrante do nosso ambiente social e cultural e do seu envolvimento com este, envolvimento que começa antes de nascermos. O ventre é um ambiente relativamente sossegado e a partir do terceiro trimestre o feto é observado a reagir a sons externos, especialmente ao discurso e canções da mãe, bem como a músicas externas.

Em particular, apesar do discurso ser parcialmente abafado e o espectro do som ser reduzido para as suas frequências mais altas, as modulações do tom do discurso da mãe são perfeitamente audíveis. Subsequentemente, como recém-nascidos, demonstramos sensibilidade à voz da nossa mãe comparativamente à de outras mães, bem como sensibilidade à música da nossa cultura maternal – particularmente à música que a mãe ouvia durante a gravidez.

Mais ainda, porque a nossa vida fetal envolve uma corrente sanguínea comum, o envolvimento emocional da mãe com a música (relacionado com a sua condição neuroendócrina) durante a gravidez é também partilhado. A música que ela acha agradável, tranquila, relaxante, emocionante ou aborrecida produzirá em nós um afecto preconcebido associado ao som. Assim entramos no mundo com um preconceito cognitivo e emocional em relação à voz da nossa mãe e à sua música.

Esta teia de linguagem, música, discurso e canção desde a fase pré-natal passando pela infância é evidenciada em interacções vocais entre os nossos pais (os que cuidam de nós) e nós próprios enquanto crianças. Os sons vocais destes adultos são intrinsecamente musicais e encorajam sons imitativos, cantar espontâneo e crescente domínio vocal da nossa parte durante os primeiros dezoito meses de vida. As mães exageram aspectos acústicos críticos no discurso (tais como dar ênfase a vogais e elevar o tom vocal) quando se nos dirigem enquanto crianças pequenas. Têm também, frequentemente, um repertório especial de canções de embalar que são caracterizadas por tons relativamente mais altos, tempos mais lentos e qualidade de voz mais emotiva quando comparadas com o seu estilo de cantar usual.

Estes elementos comuns do comportamento vocal na nossa educação enquanto crianças pequenas são suportes essenciais para o desenvolvimento musical subsequente e comportamentos musicais diferentes. Contudo, muitas destas interacções vocais e musicais não são conscientes. Os pais raramente se apercebem de como estão a encorajar, moldar e construir o nosso desenvolvimento musical. Consequentemente, qualquer relativa falta de interacção entre um progenitor e nós, qualquer relativa escassez no nosso ambiente sonoro local, tal como um encorajamento limitado a participar e explorar o som, poderá conduzir a um menor desenvolvimento musical, quando comparado com o de outros que têm essas experiências e oportunidades.

Esta diversidade de experiência musical pré-escolar precisa de ser entendida e tratada quando as crianças entram no sistema educacional se quisermos assegurar que a musicalidade básica de cada criança é desenvolvida até ao seu potencial máximo, seja ele qual for. Se o comportamento musical é parte integrante do ser humano, devia ser também parte integrante de qualquer sistema educacional que afirme educar a pessoa no seu todo. Isto não é negar que muita da aprendizagem na música tem lugar fora da escola, mas antes contrapor que tal experiência não escolar pode ser casual, fortuita e irregular ao nível do indivíduo. A música na escola, por consequência, não é apenas um direito educacional e humano básico; devia ser sensivelmente planeada para se dirigir à diversidade das nossas bases musicais, para diferenciar as nossas necessidades musicais e para encorajar o desenvolvimento musical individual.

Por exemplo, crianças cujas mães lhes cantaram durante os primeiros anos de vida e que foram encorajadas a cantar terão grande probabilidade de entrar na escola aos cinco anos como cantores relativamente competentes. Não será surpresa que as crianças que tenham tido menos oportunidades para cantar ou que lhes cantassem, entrarão muito provavelmente na escola como cantores menos competentes.

Infelizmente, este último grupo será mais facilmente rotulado de “não-musical” por adultos insensíveis e mal informados. Comentários negativos de tais professores com base na observação da capacidade de cantar, gera humilhação pública em frente dos amigos e colegas e uma sensação de vergonha e inadequabilidade que poderá levar a que tenha, durante toda a vida, uma auto-percepção de incapacidade musical.

Não precisa de ser assim. Tais comentários negativos e prejudiciais advêm de vários pressupostos falsos, tais como, as pessoas ou são musicais ou “não-musicais” e cantar é uma actividade simples. O facto de algumas crianças e adultos parecerem achar que cantar é fácil esconde a complexidade básica que lhe está subjacente. Cantar envolve palavras e música interligadas num comportamento físico complexo que tem fortes associações culturais. As experiências pré-escolares de algumas crianças levam a que se concentrem no elemento da canção que (para elas) tem maior significado, nomeadamente, as palavras. As mesmas crianças tornam-se muito mais exactas a nível do som se lhes pedirem para se concentrarem apenas nos aspectos musicais da canção sem a “contaminação” perceptual do seu texto.

Mais ainda, há um efeito escolar altamente significativo. A investigação demonstra que, enquanto algumas escolas encorajam nos seu alunos o desenvolvimento do acto de cantar canções, outras não. Em algumas escolas, crianças que são relativamente menos exactas/precisas do que os seus colegas aos cinco anos (na correcção do tom ou das palavras, ou ambas) podem tornar-se ainda mais imprecisas aos sete. Em contraste, noutras escolas, as crianças melhoram significativamente pelos sete anos, apesar de terem demonstrado a mesma competência para cantar aos cinco anos, o que sugere que haverá variações importantes na qualidade do ensino musical de umas escolas para outras.

Parece que muitas crianças (ocidentais) seguem uma sequência faseada na qual o acto de cantar completamente afinado é precedido por comportamentos mais simples, menos complexos. Estas fases parecem estar relacionadas com o foco percepcional da criança, que tende a evoluir do texto da canção para um contorno melódico, depois para uma exactidão baseada em expressões e finalmente para uma correcção generalizada mais desenvolvida. As crianças pequenas têm também um limitado alcance de tom vocal confortável. Este alcance tende a expandir-se à medida que a criança cresce, com as raparigas a apresentarem alcances mais vastos do que os rapazes, para grupos etários consecutivos.

Paralelamente à abordagem de assuntos relacionados com o desenvolvimento, a educação musical escolar terá mais sucesso se abranger quer a pluralidade de culturas musicais dentro da comunidade quer as preferências individuais iniciais das crianças por determinados tipos de música (e de canções). A música e as práticas musicais populares são geralmente deficientemente representadas na música na escola, o que conduz a uma ligação inadequada entre os interesses e as identidades musicais dos alunos e os currículos com que contactam. As crianças pequenas gostam de canções dinâmicas, e frequentemente usam as canções para fins específicos e indivíduos que se relacionam com as suas actividades.

É normal, por isso, que as crianças apresentem um leque de comportamentos e competências relacionados com o acto de cantar como parte do seu desenvolvimento musical. Por causa das suas experiências vocais iniciais com os pais ou educadores, as fronteiras entre cantar e falar não são muito distintas para crianças pequenas. O “cantar desafinado” irá certamente derivar de uma ligação inadequada entre a actual competência para cantar da criança e a “tarefa” musical específica que lhe foi destinada pelo professor/adulto.

Mas crianças e adultos que foram rotulados ou se auto-rotularam de “não-cantores” ou “incapazes de distinguir diferentes notas musicais” mostram-se capazes de melhorar e desenvolver capacidades para cantar, quando lhes são possibilitadas experiências educacionais adequadas.

Somos musicais: precisamos apenas da oportunidade para que a nossa musicalidade seja celebrada e desenvolvida. Este é o principal objectivo da Educação Musical.

Citando:

As crianças que tenham tido menos oportunidades para cantar ou que lhes cantassem, entrarão muito provavelmente na escola como cantores menos competentes.

Graham F. Welsh

 
Crianças cantando em coro

Crianças cantando em coro

Nos anos 90 do século XX, especialistas fizeram testes para examinar a influência da música sobre a memória. O estudo revelou que a música podia ter um impacto positivo nas revisões da matéria.

A música pode melhorar o humor reduzindo a pressão arterial e o ritmo cardíaco. Música dos períodos clássico e barroco, em especial, à volta das 60 pulsações por minuto.

Um andamento de 60 pulsações por minuto ativa o hemisfério cerebral direito, enquanto rever a matéria ativa o hemisfério esquerdo.

Com os dois hemisférios ativados, o cérebro pode tratar a informação mais rapidamente.

Apesar dos vantagens que a música pode ter sobre o cérebro e a memória, ela também ser uma causa de distração. Para evitá-lo, há que ouvir:

  • música sem palavras, que poderiam distrair, enquanto a música instrumental melhora a concentração;
  • música lenta ou moderada e nunca rápida;
  • música em volume baixo, em fundo sonoro.

Há que evitar:

  • música com baixos muito fortes, como rock ou metal;
  • músicas novas, que concentrariam o cérebro na música e não nas revisões;

Em resumo, a música pode reforçar as capacidades de memorização. Embora sejam de privilegiar a música clássica e a música barroca, o tipo de música pode variar de indivíduo para indivíduo. Para ter sucesso, cada um deve fazer os seus próprios testes e verificar o que realmente funciona.

Criança a estudar, DN Life

Criança a estudar, DN Life

Para as crianças, fazer música favorece as aprendizagens

O jovem músico brilha em todas as esferas cognitivas que dependem da atenção, como os testes de inteligência, a memória e as aquisições escolares.

Como a aprendizagem da música age sobre o nosso cérebro? Que efeitos tem sobre a curiosidade, a atenção e a memorização? É preciso tornar a aprendizagem da música obrigatória na escola? São algumas das questões colocadas por Isabelle Peretz.

Em Apprendre la musique. Nouvelles des neurosciences, livro editado pelas Editions Odile Jacob, esta investigadora aconselha a fazer música desde a idade de 6 meses. Ela cita um raro estudo em meio natural conduzido por professores da Universidade McMaster em Ontário (Canadá) sobre bebés.

“Os bebés e os seus pais aprendem um repertório de canções marcando o compasso, mexendo e cantando. Seis meses depois, as habilidades musicais dos bebés são testadas.” De modo interessante, a comunicação pais-filhos é mais intensa e o desenvolvimento socio-emotivo (exploração, sorrisos) melhora significativamente nos bebés “músicos”. “Vejo aí as primícias da inteligência”, analisa Isabelle Peretz.

Por volta dos 6 anos, reencontramos efeitos semelhantes. “As crianças de 6 anos que frequentam cursos de piano ou de canto durante um ano obtêm alguns pontos a mais na escala de medida da inteligência. Os cursos de teatro ou a falta às aulas, durante o mesmo período, não proporcionam tal vantagem.” Facto interessante, o ensino dos rudimentos da música a crianças de 8 anos durante seis meses, à média de uma aula por semana, ajuda à aquisição da leitura.

Um bom complemento à educação geral

A vantagem intelectual do jovem músico, que se exprime por resultados académicos superiores, parece manter-se durante toda a sua escolaridade. Assim, um inquérito recente realizado junto de 18 000 alunos confirmou que ao fim do secundário (entre os 16 e 17 anos), os alunos canadianos que participavam numa orquestra de sopros, um coro ou um agrupamento de cordas tinha uma taxa de sucesso mais elevada em todas as matérias avaliadas (Matemática, Biologia, Inglês).

Os que tinham seguido cursos de artes plásticas não mostravam tal vantagem. De notar, contudo, que a vantagem intelectual não se observa em músicos profissionais quando se comparam com profissionais não músicos. “Os estudantes de música não têm um QI superior aos estudantes universitários de outras disciplinas, nota Isabelle Peretz. Dito de outro modo, aprender a fazer música é uma vantagem quando a atividade faz parte da educação geral. Fazer disso uma profissão não assegura uma manutenção intelectual de alto nível.”

A ciência é encorajadora, mesmo em idade avançada pode-se aprender música. Isabelle Peretz

Traduzido por António José Ferreira da revista Le Temps (Suíça) (excerto)

Menino tocando piano, foto Best Digital Piano Guides

Menino tocando piano, foto Best Digital Piano Guides

Foto Best Digital Piano Guides

Música benéfica

Por que razão a música é benéfica para as crianças?

A aprendizagem da música pode melhorar a aquisição e a compreensão da linguagem nas crianças, estipula estudo por investigadores da Northwestern University de Chicago (Estados Unidos da América).

Com os efeitos da música sobre o cérebro largamente reconhecidos pela ciência, o estudo publicado por uma equipa de investigadores da Escola de Comunicação da Northwestern University de Chicago fornece provas da evolução neurobiológica nos cérebros das crianças iniciadas durante pelo menos dois anos na aprendizagem de música. Este foi o primeiro estudo a analisar in situ a evolução da perceção sonora pelo cérebro das crianças participando durante melo menos dois anos num programa de formação musical.

“As nossas observações comprovam que a aprendizagem da música pode literalmente remodelar o cérebro de uma criança de modo a melhorar a sua receção sonora, o que melhora automaticamente as suas aptidões de aprendizagem da linguagem”, afirma a autora do estudo, Nina Kraus, professora de ciências da comunicação.

Com as suas equipas, Nina Kraus era a primeira a seguir o impacto da aprendizagem musical sobre as aptidões cognitivas das crianças de 3 a 6 anos participando num programa de sensibilização musical existente: o Harmony Project, programa de educação musical gratuito em bairros problemáticos de Los Angeles.

À semelhança de El Sistema venezuelano, o Harmony Project propõe há mais de dez anos oficinas de música destinadas a crianças de famílias desfavorecidas depois da escola. Como o sublinha a fundadora do projeto Margaret Martin, os participantes do Harmony Project vêm muitas vezes de famílias fustigadas pela violência, a criminalidade ou a droga. O Harmony Project oferece-lhes a possibilidade de aprender um instrumento, mas também de participar num projeto coletivo, de se exprimir e de se superar. Observando os seus alunos, Margaret Martin chegou a uma conclusão surpreendente: “Desde 2008, 93% de jovens que fizeram parte do Harmony Project terminaram com sucesso o seu percurso escolar e inscreveram-se na universidade, apesar da taxa de insucesso escolar superior a 50% nos seus bairros.”

Nina Kraus está convencida de que a aprendizagem da música é uma das principais razões desta mudança. Como explica a investigadora, a música e a linguagem são baseadas nos mesmos parâmetros – a altura, o timbre e a duração, e o seu tratamento pelo cérebro é similar. Por conseguinte, expondo o cérebro de uma criança à aprendizagem da música de forma regular, ele é mais estimulado para tratar estes três parâmetros e consegue analisá-los mais rapidamente e com maior precisão.

“Utilizámos testes neurológicos rápidos, mas poderosos, que nos permitiram avaliar o tratamento neurológico dos estímulos com uma nova precisão. Verificámos que as mudanças no cérebro ocorrem ao fim de dois anos de aprendizagem musical”, explica Nina Krauss. Isso prova que a educação musical não pode funcionar acelerando-se, mais se faz parte da educação musical, ela pode ter um impacto duradoiro e muito benéfico sobre as capacidades de escuta e as aptidões para a aprendizagem.”

Coautores do estudo:

Jessica Slater, Elaine C. Thompson, Dana L. Strait, Jane Hornickel, Trent Nicol e Travis White-Schwoch

Traduzido por António José Ferreira de France Musique

Alunos do Conservatório de Música do Porto

Alunos do Conservatório de Música do Porto

Motivar para aprender

Motivação para a aprendizagem musical

Vânia Moreira

A aprendizagem instrumental, independentemente do contexto escolar onde se insira, reveste-se de caraterísticas únicas quando comparada com outras aprendizagens […]. Aprender a tocar um instrumento envolve a aquisição de uma enorme variedade de competências: auditivas, motoras, expressivas, performativas, e no caso do ensino especializado, envolve também a aquisição de competências de leitura. […] A aquisição dessas competências a um nível elevado só é possível se forem gastas, literalmente, milhares de horas a estudar, a praticar, a repetir, num processo de reclusão encarado como inerente ao processo de aprendizagem.

F. Cardoso

A citação acima apresentada reflete a complexidade que envolve a aprendizagem musical, assim como a razão pela qual a tarefa de ajudar os alunos a manter níveis elevados de motivação ao longo de todo o processo de aprendizagem é crucial, ainda que constitua um desafio.

Atualmente, existem já diversos estudos realizados no âmbito da psicologia musical e da neurociência direcionada para o processamento musical que comprovam que o cérebro humano desenvolve áreas muito específicas através da aprendizagem musical, sendo que a extensão dessas mudanças depende da duração do período de tempo em que decorreu essa aprendizagem. A bibliografia existente nesta área converge no sentido de valorizar que um envolvimento ativo na aprendizagem musical desenvolverá na criança competências a diversos níveis, entre as quais se poderá destacar:

  • Capacidades percetuais, linguísticas e de literacia;
  • Literacia numeral;
  • Desenvolvimento intelectual;
  • Realização geral e criatividade;
  • Desenvolvimento pessoal e social;
  • Desenvolvimento físico, de saúde e de bem-estar;
  • Desenvolvimento da consciência cognitivo-emocional;
  • Desenvolvimento do comportamento autorregulado;
  • Desenvolvimento da capacidade verbal e do raciocínio não-verbal.

Contudo, apesar de estar cada vez mais difundida a informação acerca dos benefícios proporcionados pelo envolvimento ativo na aprendizagem musical, vários investigadores desta área continuam a centrar os seus esforços na compreensão das razões pelas quais é tão difícil os alunos manterem o seu percurso de aprendizagem musical até um nível superior, assim como em compreender quais os fatores que condicionam a motivação ao longo do processo de aprendizagem musical, e, ainda, perceber quais as estratégias mais eficazes para promover a motivação neste contexto.

Entre as diversas fontes relacionadas com a motivação na aprendizagem musical, os autores destacam vários fatores internos e externos ao aluno que influenciam este processo, entre os quais se pode mencionar a título de exemplo:

  • Prazer que o aluno retira da prática musical – satisfação pessoal;
  • Importância atribuída à prática musical pelo contexto onde o aluno se insere;
  • Apoio e valorização por parte dos pais, professores, pares e irmãos;
  • Utilidade para o futuro das competências desenvolvidas no decorrer da aprendizagem e prática musical;
  • Perceção de capacidade pessoal para ser bem-sucedido na prática instrumental;
  • Predisposição para dispensar tempo e esforço numa prática instrumental regular;
  • Capacidade de lidar com a tensão, o sucesso e o fracasso associados aos concertos e audições;
  • Capacidade de acompanhar o ritmo de aprendizagem e evolução imposto no ensino especializado da música.

Os estudos existentes nesta área não são consensuais em definir quais os fatores (externos ou internos) que exercem maior influência na motivação para iniciar o processo de aprendizagem musical. Contudo, todos parecem estar de acordo que, para que haja uma continuação de aprendizagem após a transição para a adolescência, é fundamental que a criança tenha desenvolvido uma forte motivação intrínseca e que revele pouca necessidade em recorrer a fatores de ordem externa.

A postura dos pais e dos professores de instrumento será um fator determinante para o desenvolvimento da motivação interna da criança para estudar música.

Vânia Moreira

Hallam refere que o simples ato de os pais valorizarem os progressos do filho numa conversa com os seus amigos de turma é um reforço altamente positivo e potenciador de fortalecer a motivação interna da criança. O reconhecimento que o aluno recebe dos outros que são significativos para si assume um papel importante no desenvolvimento da sua identidade enquanto músico, e isso motivá-lo-á a esforçar-se mais – quer pela intensificação da sua prática instrumental, quer pelo empenho em obter resultados mais elevados – o que resultará num fortalecimento da sua dimensão enquanto músico.

“[…] assim pode desenvolver-se um ‘ciclo virtuoso’ em que os níveis de realização musical e de identidade musical se tornam interdependentes. Por outras palavras, a motivação de uma criança para ser bem-sucedida na música está inextricavelmente relacionada com aspetos da sua identidade musical: a forma como eles concebem as suas próprias capacidades tem uma influência direta na sua motivação para se empenharem em atividades que desenvolvem essas competências, e vice-versa.”

S. Hallam

Hallam explica dessa forma como fatores externos podem potenciar fortemente a motivação interna da criança face à aprendizagem de um instrumento musical. Neste sentido, a autora considera que as teorias da motivação podem explicar alguns dos efeitos presentes na construção de identidade musical. São diversas as perspetivas desenvolvidas acerca do conceito de motivação, mas vários investigadores da área da psicologia musical parecem centrar-se sobretudo em quatro dessas teorias: a teoria de autoeficácia, a teoria do fluxo, a teoria de atribuição causal e a teoria de expectativa e valor.

A teoria de autoeficácia, enquadrada na aprendizagem instrumental, centra-se na sensação de competência do aluno. Ou seja, em que medida o aluno acredita nas suas competências e capacidades para atingir os seus objetivos. Assim sendo, não basta que o aluno seja capaz de realizar uma determinada tarefa; é necessário que ele acredite que é capaz de a realizar. Segundo Pajares, a perceção que o sujeito tem acerca das suas capacidades “constitui um determinante do comportamento, influenciando as suas escolhas, o seu empenho na realização da tarefa, a sua perseverança face às dificuldades, e os padrões de pensamento e respostas emocionais que o indivíduo experienciará”.

Os resultados dos estudos realizados na investigação musical no âmbito desta teoria revelam que a perceção de autoeficácia que o aluno tem influenciará a sua motivação e futuras decisões relativamente à continuidade da prática instrumental; em contexto de exame, os alunos que apresentam valores mais elevados de autoeficácia tendem a atingir níveis mais elevados de execução musical do que os alunos que têm as mesmas capacidades mas uma perceção de autoeficácia mais baixa; as crianças tendem a envolver-se mais em atividades musicais quando se sentem capazes de realizar bem as tarefas e as valorizam – esses alunos apresentam mais desenvoltura, persistência e perseverança.

A teoria do fluxo, proposta por Csikszentmihalyi, em 1990, sugere que a motivação é influenciada pelo desafio das tarefas, pelo que é de extrema importância que as atividades sejam estruturadas de forma que o aluno tenha a perceção que o desafio que elas constituem está a um nível bastante próximo das suas competências – se as atividades forem demasiados fáceis e o nível de competência for elevado, o aluno sentir-se-á entediado; se, pelo contrário, as atividades forem demasiado difíceis e o nível de competência for baixo, o aluno sentir-se-á ansioso; em contrapartida, se ambos os níveis forem baixos, desenvolver-se-á nos alunos uma sensação de apatia. Assim, de acordo com esta teoria, as atividades são mais aprazíveis quando o desafio representado pela tarefa e as capacidades do músico se encontram num bom equilíbrio. Para que o fluxo se mantenha, a complexidade das tarefas deverá aumentar com o desenvolvimento das competências do aluno e com a definição de novos desafios.

Relativamente à importância dos princípios da teoria de atribuição causal para a aprendizagem de um instrumento musical, vale a pena CITAR O’Neill e McPherson:

As expectativas são fundamentais para manter a motivação, pelo que compreender como os alunos atribuem as causas dos seus sucessos ou fracassos, sobretudo num ambiente stressante como o de performance musical, é um passo importante para compreender flutuações no desempenho dos alunos.

S. O’Neill e G. McPherson

Weiner é apontado como o expoente máximo neste domínio e, segundo este teórico, o foco da questão não está no sucesso ou no falhanço, mas sim nas causas às quais se atribuiu o resultado atingido; e serão essas atribuições causais que determinarão as expectativas do aluno sobre se continuará a ter desempenhos positivos ou negativos. Weiner definiu três dimensões de atribuições causais:

  • Causa interna ou externa – se a causa é percecionada como sendo interna ou externa ou aluno;
  • Persistência da causa – se a causa à qual é atribuído determinado resultado se mantém ou se é trocada por outra causa;
  • Controlo – se o indivíduo consegue controlar a causa.

Assim sendo, esta teoria centra-se nas diferentes razões que um músico encontra para explicar uma performance bem-sucedida ou malsucedida. As pesquisas realizadas nesta área permitem concluir que as causas mais frequentemente atribuídas pelos alunos ao seu desempenho se relacionam com a sua capacidade e o seu esforço, sendo as menos frequentes as atribuições relacionadas com fatores de sorte ou resultantes de aplicação de estratégias de aprendizagem; alunos que atribuem resultados malsucedidos à falta de esforço e à adoção de estratégias de aprendizagem erradas parecem ter mais facilidade em antecipar melhorias no seu desempenho em situações futuras, quando comparados com alunos que atribuem os maus resultados de uma performance instrumental à falta de capacidades; os alunos que atribuem o seu sucesso ou fracasso às suas capacidades tendem a abordar a tarefa de forma diferente dos seus colegas que atribuem os resultados dos seus sucessos ou fracassos ao esforço que empenharam na resolução da tarefa.

A teoria de expectativa e valor tem por base a proposta de Atkinson, em 1974, mas foi-se aprimorando e ramificando através do trabalho de diversos teóricos que se sucederam. De uma forma geral, pode-se centrar a sua base na premissa de que as expectativas que o indivíduo tem em relação a determinada tarefa, assim como o valor que lhe atribui, condicionam a motivação que o sujeito direciona para a sua realização, e, consequentemente o seu desempenho. Assim, os modelos baseados nesta perspetiva englobam três componentes:

  • Componentes de valor – importância que o indivíduo atribui à tarefa;
  • Componentes de expectativa – crença do sujeito acerca das suas competências para ser bem-sucedido no desempenho da tarefa;
  • Componentes afetivas – sentimento do indivíduo para consigo próprio em relação a essa atividade.

O modelo de motivação expectativa-valor tem sido utilizado, desde a sua criação, como suporte teórico para várias investigações na área da educação. E, mais recentemente, vários investigadores centrados na aprendizagem musical têm considerado este modelo um suporte teórico de excelência também para a pesquisa sobre o processo motivacional na sua área.

Transpondo o conteúdo das três componentes dos modelos assentes na perspetiva de expectativa e valor, acima apresentadas, para um contexto de aprendizagem musical, poder-se-ia dizer que um aluno que estuda piano poderia considerar as referidas componentes da seguinte forma:

  1. Em que medida o estudo de piano é importante para a minha vida presente e futura? Que benefícios e recompensas podem advir desse investimento pessoal? – Componente de valor.
  2. Será que sou capaz de tocar bem? Será que consigo atingir os níveis de sucesso pretendidos? – Componente de expectativa. 3.
  3. Comparando com as minhas outras atividades e interesses, tocar piano é uma atividade da qual retiro prazer e satisfação pessoal? – Componente afetiva.

A importância que a prática instrumental assume na vida atual e futura da criança será fomentada pela valorização atribuída a essa atividade no meio social onde a criança está inserida.

Vânia Moreira

Ghazali salienta que nos casos em que alguns membros da família tocam um instrumento musical e a criança cresce tendo instrumentos musicais ao seu redor, em princípio essa criança tenderá a sentir que tocar um instrumento é uma atividade perfeitamente comum e, tendencialmente, sentirá vontade em explorar os instrumentos e em aprender a tocar um instrumento musical. Contudo, mesmo nas famílias em que ninguém tem experiência musical, a importância atribuída à música pode ser perfeita e naturalmente transmitida à criança. Na infância, a opinião dos pais é extremamente valorizada pela criança, pelo que, quão mais os pais valorizarem a aprendizagem e o desempenho musical da criança, maior será a sua motivação para se envolver ativamente na prática instrumental.

A valorização por parte dos pais será tão mais eficaz quão maior for a sua envolvência no processo de aprendizagem musical dos filhos. Nesse sentido, será extremamente importante para a criança que os pais se empenhem também no que envolve todo este processo – como, por exemplo, assegurar o transporte para as aulas, assistir às aulas para que em casa possa acompanhar e ajudar na prática do instrumento e orientar o estudo. Este apoio e encorajamento por parte dos pais, sobretudo numa fase inicial da aprendizagem de um instrumento musical, serão cruciais para que a criança desenvolva em si, progressivamente, uma valorização pessoal relativamente a esta aprendizagem e autonomia.

G. Ghazali salienta que o envolvimento parental na aprendizagem musical das crianças tem sido destacado por variadíssimos autores como sendo o fator mais importante e influente na realização musical. Portanto, este será o primeiro passo para que, a partir de fatores externos, a criança desenvolva progressivamente em si uma motivação intrínseca relativamente à aprendizagem musical.

A postura do professor face à aprendizagem e desempenho musical do aluno também serão fulcrais no desenvolvimento da motivação interna do aluno. No sentido de desenvolver uma atitude pedagógica adequada à potenciação e conservação de níveis elevados de motivação durante o longo processo de aprendizagem, será extremamente importante o professor conseguir encontrar um equilíbrio desafiante nas tarefas que propõe ao aluno, assim como saber quais as dimensões adequadas a valorizar. Cardoso sugere quatro mecanismos de regulação motivacional que os professores poderão utilizar de forma a conseguir potenciar e manter a motivação dos alunos.

  • Ajudar os alunos a definir expectativas elevadas para si próprios – o professor deverá apresentá-las de forma clara e inequívoca e com orientações práticas que permitam ao aluno saber quais as estratégias adequadas que terá que selecionar. De acordo com o referido autor, vários estudos demonstram que os alunos reagem positivamente às expectativas que os professores estabelecem para eles. Contudo, deverão ser expectativas desafiantes, mas realistas e que os alunos se sintam capazes de atingir.
  • Ajudar os alunos a atingir níveis elevados de eficácia na aprendizagem – para isso é importante definir e desenvolver estratégias que permitam ao aluno ultrapassar as dificuldades com que se irá deparar; assim como dar um feedback apropriado, valorizando o esforço do aluno nos casos de sucesso, e desvalorizar o fracasso com críticas construtivas – é importante ajudar o aluno a compreender que as falhas fazem parte do percurso, e que estarão do seu lado para os ajudar a ultrapassar um erro e a perder o receio de falhar.
  • Ajudar a desenvolver uma motivação intrínseca – segundo o autor, isso passará por encontrar um equilíbrio propondo tarefas desafiantes, mas que os alunos saibam que são capazes de a realizar, encarando-as como algo enriquecedor, desafiante e agradável.
  • Ajudar os alunos a desenvolver autonomia na implementação destes mecanismos de regulação motivacional – permitindo que os alunos façam as suas próprias escolhas, o professor estará a incutir no aluno a consciência de que ele também é responsável pela sua própria aprendizagem e desenvolvimento; incentivando o aluno a dar sugestões para a resolução de determinada problemática, o professor estará a incentivar o aluno a usar os mecanismos de regulação motivacional que se pretende desenvolver; explicando as razões pelas quais elogia ou se sente descontente com o desempenho do aluno, o professor está a ajudá-lo a aprender a autoavaliar-se.

A valorização do esforço e empenho do aluno é um ponto amplamente salientado pelos vários autores. M. Schatt, acerca desta questão, salienta ainda que a enfatização do esforço do aluno será mais eficaz na potenciação da sua motivação intrínseca do que a valorização das suas capacidades ou a comparação com outros colegas. Colocando a ênfase do sucesso do aluno no seu empenho e trabalho, está a incentivar-se o recurso a estratégias cognitivas, a persistência e perseverança face ao fracasso, e está a potenciar-se a realização da tarefa por prazer, assim como as sensações positivas a ela associadas.

A investigação em várias áreas da educação tem revelado que as crianças pequenas tendem a assumir crenças irreais acerca da sua competência relativamente a diversas tarefas. Contudo, conforme vão crescendo e se vão tornando mais críticos relativamente às suas capacidades, a sua noção de competência torna-se mais real. À medida que a criança vai percebendo que aprender a tocar um instrumento afinal não é tão fácil como pensava e que vai ter que se confrontar com algumas dificuldades, a sua motivação tende a diminuir, sobretudo para proteger a sua autoestima do medo que tem perante a possibilidade de falhar. Neste ponto assume particular importância que a componente de expectativa (referida na descrição das componentes do modelo motivacional de expectativa-valor) tenha sido contemplada pelos pais e pelo professor no processo de aprendizagem.

A forma como o aluno vai encarar o processo de aprendizagem de um instrumento musical, assim como a orientação e acompanhamento que os professores e pais vão provir, serão determinantes para que o aluno possa desenvolver uma boa autoestima face a essa aprendizagem, desenvolver e manter a sua motivação e, consequentemente, atribuir sentido ao esforço que essa aprendizagem requer. Todos estes elementos confluirão, assim, num sentido que permitirá o aluno vivenciar sentimentos positivos face à prática instrumental – desenvolvimento da componente afetiva do processo motivacional. Estas emoções positivas constituirão, por si só, um forte elemento potenciador na manutenção de níveis elevados de motivação para a aprendizagem e prática instrumental, permitindo ao aluno encarar as inúmeras horas necessárias de estudo, prática e repetição, como um desafio que lhe permitirá atingir uma satisfação maior.

O’Neill e McPherson parecem sintetizar de forma bastante clara e concisa toda a problemática desenvolvida nesta secção referente à motivação para aprender um instrumento musical.

De facto, existem poucas dúvidas de que a motivação para dar continuidade à prática instrumental está inextricavelmente relacionada com o ambiente social e cultural, e portanto também é importante saber como a motivação para tocar um instrumento pode ser influenciada por fatores externos como os pais ou os professores. Não obstante a importância destes fatores, não há quantidade suficiente de apoio parental que possa fazer com que uma criança sem algum interesse intrínseco se envolva no esforço a longo prazo necessário para se conseguir atingir níveis pelo menos modestos de execução instrumental. Consequentemente, compreender como os alunos pensam acerca de si próprios, da tarefa e da sua performance é importante para que os professores possam estabelecer e manter um contexto de aprendizagem estimulante e desafiante. Os alunos precisam de sentir que o seu empenho em aprender a tocar um instrumento proporciona-lhes um sentido de escolha pessoal e de responsabilidade para alcançar as metas que estabelecem para si próprios. Tendo isto em mente, o desafio dos professores consiste em estar recetivo à perspetiva que cada criança tem acerca da sua aprendizagem e desenvolver a capacidade de compreensão acerca da complexa gama de pensamentos, sentimentos, e ações que ou sustêm ou dificultam a ação da criança ao longo dos vários anos necessários para desenvolver as suas capacidades musicais.

O’Neill e McPherson

A aprendizagem de um instrumento musical em contexto individual e em contexto de grupo, por Vânia Filipa Tavares Moreira – Mestrado em Ensino de Música – Instrumento e Música de conjunto – Orientadora Doutora Maria Luísa Faria de Sousa Cerqueira Correia Castilho, Coorientadora Especialista Catherine Strynckx. Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicadas, janeiro de 2015. Excerto.

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

Gabriela Correia, violino

Gabriela Correia, violino

Métodos para instrumentos de cordas

Vânia Moreira

Ao longo de vários séculos, o ensino instrumental foi-se processando entre mestre e aluno, em contexto individual – propiciando-se o elitismo associado à música erudita. Contudo, nos séculos XVIII e XIX, os efeitos da Revolução Francesa sentem-se em vários domínios, enfatizando a independência social das classes médias.

Entre as diversas mudanças sociais a que se assistiu, encontra-se uma intensificação de interesse dos elementos desta classe pela música erudita e pelo acesso à sua aprendizagem. Esta tendência intensificar-se-ia muito mais após a Segunda Guerra Mundial, sendo que a difusão do rádio e do gramofone tornaram a música erudita passível de ser fruída por um público muito mais vasto. Os princípios socialistas que se difundiam nessa época intensificaram ainda mais a exigência por oportunidades para todos, refletindo-se também face ao acesso ao ensino artísticos.

Neste contexto, multiplicam-se as publicações de métodos e de materiais didáticos para o ensino e aprendizagem instrumental, assim como se iniciam, um pouco por todo o mundo, diversos programas e sistemas de ensino artístico acessíveis a todos os cidadãos. Mais tarde, sobretudo na década de 70, os instrumentos de corda experienciam duas importantes inovações que permitiriam a sua expansão ao nível do ensino artístico: a produção de instrumentos de tamanhos pequenos pelo atelier de Suzuki – incluindo violinos até à dimensão de 16 oitavos e violoncelos de dez oitavos; e o aparecimento das cordas de aço – e a decorrente possibilidade de as afinar pelos esticadores.

Instrumentistas e pedagogos dão continuidade a estes ideais e unem esforços no sentido de aproximar o ensino e a execução musical de um público mais vasto, procurando abordagens mais abrangentes e ecléticas.

De entre os vários métodos desenvolvidos em torno da aprendizagem de instrumentos de corda, destacam-se aqueles implementados por Shinichi Suzuki, por Claude Létourneau e pelos irmãos Szilvay. O método proposto por Shinichi Suzuki foi-se desenvolvendo ao longo da segunda metade do século XX, sendo que o seu início decorreu no Japão, em 1945. Vendo a aprendizagem da língua materna como um processo de aprendizagem tão eficaz, Suzuki considerou a sua aplicação noutros domínios de conhecimento, como na aprendizagem musical. Assim, o autor desenvolveu um método de aprendizagem instrumental baseado na aprendizagem da língua materna e na educação do talento, definindo o ambiente familiar e o papel dos pais na educação como fatores determinantes do sucesso deste processo de aprendizagem.

À semelhança da aprendizagem da língua materna, a aprendizagem instrumental por este método processa-se por imitação, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada aluno – somente quando a criança adquire todas as competências técnicas definidas para um determinado patamar, é que poderá passar para o seguinte. E, uma vez mais, tal como na aprendizagem da língua materna, também a leitura e escrita surgem somente alguns anos após o início da prática instrumental. Assim, a memorização assume um papel fundamental neste processo de aprendizagem. O facto de a criança não ter que despender atenção para a leitura, permite-lhe uma maior concentração em parâmetros como a postura, o som e a musicalidade. Para que a memorização decorra de uma forma eficaz e célere, a audição de gravações das peças em estudo requer uma rotina diária.

Os alunos podem iniciar as aulas de instrumento a partir dos 3 anos de idade, mas sempre em conjunto com os pais. O processo inicia-se com aulas direcionadas para os pais, onde recebem informação relativa à prática instrumental; seguidamente as crianças começam a frequentar as aulas dos outros alunos, mas enquanto ouvintes; por fim, acompanhada pelos pais, a criança inicia as suas aulas individuais e as aulas coletivas.

Quando a criança inicia as suas aulas individuais, os pais já receberam a informação de que necessitam para poderem acompanhar a prática instrumental em casa – que deverá assentar na repetição e numa rotina diária que deverá decorrer em 4 ou 5 momentos ao longo do dia, mesmo que seja em períodos de tempo muito curtos (por exemplo, 3 a 5 minutos) – a repetição criará e potenciará conexões cerebrais que conduzirão à automação dos movimentos, pelo que é fundamental que a repetição decorra de forma atenta e rigorosa para que não se desenvolvam automatismos incorretos, cuja correção nem sempre é fácil.

O estudo deverá ser estimulado pelos pais, mas evitando o caráter obrigatório do mesmo, para que esses momentos não condicionem a motivação do aluno. Para tal, o professor deverá desenvolver estratégias com imaginação e criatividade para tornar a prática instrumental em casa algo divertido e estimulante para a criança – seja por gravações, por jogos, etc.

Os concertos e as aulas coletivas surgem como fatores motivacionais propostos por Suzuki, por considerar que a envolvência social permitia às crianças praticar o instrumento de forma alegre e divertida, propiciando o desenvolvimento quer pela interação social, quer pela observação de alunos mais avançados. Na perspetiva do referido pedagogo, os concertos e as aulas coletivas permitem que os alunos se divirtam e ganhem experiência de grupo, tocando todos o mesmo repertório, sem tensão ou competitividade entre si. Desta forma, as aulas individuais e coletivas são vistas como complementares no processo de aprendizagem instrumental da criança.

Atualmente, o método Suzuki está difundido por diversos países um pouco por todo o mundo, e foi adaptado a instrumentos como Viola d’arco, violoncelo, contrabaixo, guitarra, flauta, piano, órgão, harpa, bandolim, flauta de bisel e canto.

No seguimento do método proposto por Suzuki, surge o método Létourneau – Vivaldi. Criado pelo violinista Claude Létourneau, este método baseia-se nos princípios pedagógicos de Suzuki e de Kodály, defendendo que o desenvolvimento musical do aluno se processa através da relação direta com o instrumento e da exposição à música tradicional. O conhecimento teórico advirá do conhecimento prático que o aluno adquire pelo contacto com o instrumento. Apesar de este método se basear no método desenvolvido por Suzuki, ele compreende determinadas especificidades que o distinguem do seu modelo de inspiração:

  • A aprendizagem instrumental decorrente deste método abrange crianças a partir dos três anos de idade e inicia-se com aulas coletivas, às quais, posteriormente, se sucederão as aulas individuais.
  • As aulas são iniciadas de forma ativa pela criança, sendo que os pais não deverão receber instrução antes da criança.
  • Existem duas vertentes: amadorismo e via profissional.
  • Os adultos e os alunos provenientes de outras escolas também podem integrar o projeto.
  • A música tradicional canadiana e o canto estão sempre presentes no processo de aprendizagem.
  • Em contexto de exame são avaliados cinco parâmetros: postura corporal, tenacidade do arco, memória, musicalidade e ritmo.

Entre os vários pontos comuns existentes entre os dois métodos, é merecedor de destaque o facto de ambos assumirem como missão o acesso à educação artística, em particular dos instrumentos de corda, a todas as pessoas; assim como o facto de ambos promoverem formações de professores especializadas nos seus métodos.

Na década de 70, surge na Finlândia o método Szilvay, desenvolvido por dois irmãos húngaros – Géza Szilvay (violinista) e Csaba Szilvay (violoncelista). Este método tem por base a filosofia, etnomusicologia e pedagogia de Kodály e direciona o ensino instrumental para a própria criança, que aqui é assumida como o centro do processo de ensino e aprendizagem. O desenvolvimento da técnica instrumental, da audição musical, da teoria musical e da emoção musical ocorre em fase e em constante equilíbrio. Assim, a leitura é introduzida desde o início, mas com o recurso a um tipo de notação específica, centrada em símbolos, cores e desenhos – o que o torna muito apelativo para as crianças. Este tipo de notação, com o recurso à cor como uma ferramenta de auxílio na leitura, explica o porquê de este método ser amplamente referenciado como The Colourstrings method.

Este método de aprendizagem instrumental é pioneiro relativamente à aprendizagem de diversas competências técnicas numa fase inicial de aprendizagem instrumental:

  • Harmónicos naturais – o som de um harmónico (flautado, mas preciso e intenso) só soará se o aluno usar o arco de forma correta: velocidade, quantidade, pressão e posição certa.
  • Mudanças de posição – para que a criança desenvolva desde o início um contacto livre e relaxado com o instrumento.
  • Pizzicato de mão esquerda – os dedos da mão esquerda tocam em pizzicato em diferentes cordas, permitindo à criança que desenvolva a destreza da mão esquerda antes de calcar a corda.
  • Solmização relativa – este mecanismo facilitará o processo de transposição, permitindo à criança tocar uma frase transposta para qualquer tonalidade. Este mecanismo desenvolve-se ensinando a criança a entoar primeiro a nota que quer ouvir e tocá-la somente depois de a ter entoado. Além de desenvolver um bom sentido de afinação, permite que a criança toque uma melodia em quase qualquer tonalidade sem precisar de pensar em notas diferentes ou com alterações, e permite ainda que a criança toque desde muito cedo em várias posições do instrumento.

Todos estes parâmetros convergem no sentido de permitir desenvolver uma posição bastante livre com o instrumento.

Tendo em conta a especificidade deste método, a sua utilização requer uma formação aprofundada para os professores. Nesse sentido, a organização promove anualmente a sua divulgação através de congressos, simpósios e cursos, desde 1977, e com programação já prevista até abril de 2016. Uma vez que este método incentiva a introdução da prática coletiva desde cedo na formação do aluno, os cursos de formação de professores incluem formações direcionadas para as aulas individuais de instrumento, mas também para as aulas coletivas. As formações de professores estão estruturados em três fases sucessivas, sendo que a participação requer a prévia realização de cada fase precedente, assim como a comprovação de lecionação de acordo com o método em questão – requisitos aplicáveis à admissão da formação paras as fases II e III. Os pontos centrais para os membros da organização deste método consistem numa posição adequada e relaxada com o instrumento; qualidade de afinação e ritmo; qualidade do som, incluindo desenvoltura com o arco, fraseado e musicalidade; e audição interior dos alunos.

O violinista húngaro Paul Rolland também desenvolveu um método para o ensino de instrumentos de corda inspirado no método criado por Suzuki, mas com a introdução de elementos de leitura desde o início do processo de aprendizagem. O foco deste método incide sobre o relaxamento, e a ação e equilíbrio corporal de uma forma total – todos os movimentos são realizados de forma circular e graciosa; tal como os irmãos Szilvay, Paul Rolland incentivou a introdução de mudanças de posição, pizzicatos de mão esquerda e uso de harmónicos desde o início da aprendizagem instrumental; aconselhou que se segurasse o arco pelo seu ponto-massa (em vez do talão) para que fosse mais leve e se evitasse tensões; e enfatizou que todos os movimentos repetitivos (como o détaché, spiccato, sautillé, tremolo e vibrato) seriam, na verdade, resultantes de movimentos reflexos, quando executados a partir de um movimento saudável e vazio de tensões. Os seus princípios seriam adaptados para o violoncelo por Joan Dickson, que frequentava as suas formações.

E é neste domínio que Rolland merece também um lugar de destaque na pedagogia dos instrumentos de corda: enquanto fomentador de formação para professores de instrumentos de corda. Em 1946, Rolland impulsionou a fundação da Associação Americana de Professores de Cordas, nos Estados Unidos da América – país para o qual havia emigrado pouco antes da Segunda Guerra Mundial – com o intuito de promover oportunidades de acesso a formações para os professores, e de proporcionar um espaço onde os professores pudessem discutir ideias e pontos de vista relativamente ao ensino dos seus instrumentos.

Um dos maiores seguidores do método de Rolland foi Sheila Nelson, que, em conjunto com a sua equipa, não só desenvolveu um método de ensino combinando os ideais de Rolland e de Kodály, como também fomentou a formação de professores através de cursos regulares – sendo de destaque o facto de que muito material de ensino foi desenvolvido a partir do trabalho de Sheila Nelson e sua equipa.

Ao longo da segunda metade do século XX, surgiram vários livros relativos à prática de violoncelo, refletindo não só a preocupação com a prática do instrumento, mas também com o ensino do mesmo. A reflexão e divulgação sobre diferentes perspetivas na abordagem do instrumento e o seu ensino são essenciais para a divulgação e evolução do mesmo, pelo que estas obras constituem pilares no panorama musical em geral, e no panorama violoncelístico em particular. Entre essas obras destacam-se Cello Playing of Today, de Eisenberg; An Organized Method of String Playing, Violoncello Exercises for the Left Hand, de Janos Starker; How I Play, How I Teach, de Paul Tortelier; Essay on the Craft of Cello Playing, de Bunting; e The Cello, de Pleeth.

À semelhança da ação dos pedagogos Kodály, Suzuki, Létourneau e Szilvay (entre tantos outros) direcionada no sentido de permitir o acesso ao ensino instrumental a todos os cidadãos, cada vez mais se tem assistido a esforços políticos direcionados para esse mesmo objetivo.

Assentes no pressuposto de que a música é um meio por excelência para o desenvolvimento de competências cognitivas e competências não-cognitivas, têm sido desenvolvidas, em várias partes do mundo, políticas sociais promotoras da educação musical visando a redução de desigualdade de oportunidades de acesso a este ensino artístico. Exemplo disso, são projetos como Kultur macht stark, promovido pelo Ministério Federal da Educação, na Alemanha; Jedem Kind ein Instrument, também um projeto alemão, mas a nível regional, sendo apoiado pelo governo de Renânia do NorteVestfália; assim como o incontornável El Sistema, cuja difusão permitiu o incentivo de políticas sociais promotoras da educação musical acessível a todas as crianças um pouco por todo o mundo – sendo já, pelo menos, os países que promovem projetos inspirados no sistema de orquestras venezuelano.

A aprendizagem de um instrumento musical em contexto individual e em contexto de grupo, por Vânia Filipa Tavares Moreira – Mestrado em Ensino de Música – Instrumento e Música de conjunto – Orientadora Doutora Maria Luísa Faria de Sousa Cerqueira Correia Castilho, Coorientadora Especialista Catherine Strynckx. Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicadas, janeiro de 2015. Excerto.

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

Violinista prodígio de costas, New York Times

Violinista prodígio de costas, New York Times

Ser, pertencer e promover

J. Terry Gates, Música na Educação: Pertencer, ser e promover, publicado a 6 de outubro de 2003, no sítio da International Society for Music Education, tradução do Inglês por Etelvina Pereira para a Meloteca

[ “A música é uma das características permanentes e universais do ser humano.” ]

Os professores de música têm uma grande influência ao nível da comunidade. Nenhum outro grupo de músicos tem a motivação, o conhecimento e o alcance em termos de apoio que os professores de música têm através das crianças e dos jovens da comunidade. Por detrás de comunidades onde a música é variada, forte e vibrante, há frequentemente um professor de música. Devíamos estudar as abordagens destes colegas. E devíamos dar-lhes o devido valor. Eles conhecem e compreendem profundamente a música na cultura da sua comunidade e sabem como usar o seu conhecimento da música de outros lugares e épocas para alargar os recursos musicais da sua comunidade. Que ideias tornam isto passível de ser realizado por todos?

Este trabalho é acerca dos valores culturais e pessoais que sustentam a defesa da música inteligente. Pretende-se encorajar todos os professores de música a reforçar a vida musical das suas próprias comunidades olhando de forma breve e aberta para o que sabemos acerca de pertencer a um grupo social e ser individualmente humano através da música.

ALGUMAS IDEIAS BÁSICAS

A música é uma das características permanentes e universais do ser humano. As pessoas irão sempre encontrar e criar música que contribua efectivamente para a qualidade das suas vidas individuais e colectivas – no dia-a-dia e nos rituais culturais que são importantes para manter as suas sociedades. A música fraca é facilmente posta de lado e substituída por outra quando os recursos não sustentam a necessidade; e as pessoas descobriram recursos gratuitos ou pouco onerosos para criar, elas próprias, música interessante, eficaz e gratificante.

Para além da música, também a linguagem e a quantificação (sistemas numéricos) são universais. As especificidades da linguagem, do número e da música diferem de lugar para lugar e mudam com o tempo, num mesmo lugar. Mas a sua importância nunca está em causa. As características detalhadas de linguagens, sistemas numéricos e tradições musicais específicas tornam-se marcos culturais, prova de que alguém pertence a um grupo social ou étnico. As pessoas “pertencem”, ao reclamar posse de determinados marcos culturais específicos, aprendendo a usá-los quer de uma forma natural (apenas por crescer e viver inserido nessa cultura) quer através do percurso escolar.

A educação é também uma parte permanente da vida humana, tal como a música, os números e a linguagem. E, neste ponto, temos de definir educação: Educação é qualquer tentativa deliberada de conduzir a aprendizagem de outra pessoa, independentemente de onde ou com quem esta actividade ocorra. As escolas são lugares especiais onde a educação pode ocorrer, e onde as tentativas de conduzir e acelerar a aprendizagem são deliberadas e sistemáticas. A escolaridade é um tipo especial de educação, de acordo com esta definição.

Contudo, a aprendizagem ocorre tanto dentro como para lá da escola – aprendemos por nossa conta bem como através das tentativas deliberadas de outros de acelerar ou conduzir a nossa aprendizagem. A aprendizagem musical ocorre com e sem a escola. O ensino faz-se, não só por professores profissionais mas também por familiares, pares e outros.

Pertencer a um grupo social é crítico para a maior parte dos humanos. Pertencer depende da aprendizagem na e da cultura do grupo. É a necessidade de pertencer que acelera a aprendizagem de um indivíduo dos processos e materiais da sua cultura, incluindo a cultura musical do grupo. Formal ou informalmente, o grupo social usa a sua cultura para educar os seus membros e os líderes do grupo sabem o quanto a cultura é importante para a unidade, a integração e o controle social.

A música faz parte da educação das crianças e dos jovens pelas mesmas razões que a linguagem e os números – para alargar e solidificar o sentimento de pertença de cada um ao grupo social e contribuir para a cultura da qual a sociedade depende para a sua unicidade e unidade.

SER E PERTENCER À ERA DA INFORMAÇÃO

A era da informação coloca novas exigências às ideias referidas acima e que o tempo já testou. Mais do que nunca, as pessoas têm acesso às tradições musicais de sociedades que não a sua, e os políticos preocupam-se com o facto de a música estar a perder o seu poder de unificar as pessoas dentro de uma sociedade e distingui-las de outros grupos. Porque as pessoas têm acesso quase ilimitado ao que outros valorizam a nível musical, podem também absorver a percepção de que é humano criar e preservar a música. Isto ajuda-nos a ultrapassar as nossas diferenças porque agora podemos saber que valorizar a música é algo que todas as sociedades fazem. Acções com base na necessidade da música ligam-nos numa aldeia global de pessoas musicais. Sentimos isso agora.

SER E PERTENCER EM SEGURANÇA

É aqui que os professores de música podem concentrar muito do seu esforço. A escolaridade é pertencer. Para a maioria das pessoas, pertencer a uma sociedade específica através da sua cultura é o que as escolas promovem e uma educação vasta é precisamente sobre isso. Se a nossa cultura musical de origem é firme – se o nosso sentimento de pertença é forte – então a nossa vontade de tolerar as diferenças aumenta. Esta segurança cresce ainda mais se contribuímos efectivamente para essa variada cultura musical.

Através de uma aprendizagem musical deliberada, podemos reforçar as contribuições de cada criança para a sua cultura de origem e, mais ainda, valorizar a diversidade e percebê-la como humana em vez de temer a diferença.

Muita da mais recente literatura filosófica sobre música tem a ver com SER / EXISITIR através da música, e pode facilmente ser encontrada. Tal literatura lembra-nos que uma vida simples que pretenda ser mais intensamente humana inclui necessariamente música.

Amadurecer, ser completo, sentir-se realizado, estar “desperto” ou plenamente em contacto com o nosso ambiente, expandindo as nossas capacidades cognitivas e físicas, tornar-se mais eficaz e confiante, exprimir as nossas percepções ou estados afectivos através da música – tudo isto e muito mais confia na música e noutros recursos para contribuir para um sentido individual de SER / EXISTIR. Se estivéssemos sozinhos, a fazer música numa ilha, ainda assim a música iria possibilitar-nos todos estes benefícios.

Ser plenamente humano, contudo, é, por inerência, social – geneticamente somos animais sociais. Como indivíduos agimos na nossa socialidade de diferentes formas, incluindo as musicais. “Comparamos notas “musicalmente, revelando as nossas percepções musicais, e partilhando e recebendo recursos e benefícios musicais tais como os atrás referidos, integramos as nossas vidas com as de outros indivíduos. Com isto crescemos, não só como indivíduos, mas como parte de um colectivo através do qual os nossos poderes individuais se intensificam. Precisamos de outras pessoas e ser humano é, definitivamente, também uma questão de pertença. Ser e pertencer são estados recíprocos, inseparáveis; são o yin e o yang da vida humana.

ENTÃO… QUAL É O PROBLEMA?

Se a música é ubíqua, se sabemos que está na base do que é ser humano, e se a era da informação está a mudar a aprendizagem da música, o que pode então apoiar os professores que precisam de ser defensores da música? E que ideais, então, os ajudariam a ser eficazes?

Esses defensores sentem que há um vazio ou um problema num conjunto actual de condições e têm uma ideia de como esse vácuo poderia ser preenchido ou de como o problema poderia ser resolvido. A defesa convencional da música (incluindo o ensino da música financiado pelo estado) tem a ver com a atribuição de vantagens a conjuntos específicos de tradições definidas com exemplos “aprovados” e “melhores” práticas. É compreensível que assim seja. Os defensores devem, logicamente, concentrar-se na música de forma mais rigorosa do que as pessoas comuns fazem nas suas vidas musicais. A maioria não defende a importância geral da música, em parte porque é um pressuposto, e em parte porque tem que concentrar os seus esforços em metas mais específicas, em vez de noutras mais gerais, de modo a que a sua reivindicação de sucesso seja válida.

Para muitos defensores da música o vazio a nível dos recursos parece artificial. Um corpo governamental está a tentar criar uma cultura artificial, ou a tentar preservar uma que já não tem significado. Em algumas partes do mundo, a música na escola é vista como artificial; noutras, as paredes musicais da escola são (felizmente) mais permeáveis. Como já referimos atrás, as pessoas comuns são muito boas a preencher qualquer vazio artificial que encontrem nas suas vidas musicais, e os políticos que tentaram controlar em demasia a diversidade musical foram substituídos mais cedo ou mais tarde.

O erro que a maioria dos defensores da música geralmente faz é ligar as suas propostas para melhorar os recursos musicais de uma comunidade a uma ou duas tradições musicais favorecidas, em vez de à especialização musical em geral. Os defensores da música apoiam a causa de algumas tradições musicais por oposição às restantes, com o intuito de mostrar aos outros que estão a atingir os seus objectivos. É uma tentativa de controlar e simplificar, em vez de liberar e diversificar.

Um programa que pretenda limitar as opções musicais pode ter sucessos muito pouco duradouros. Mas, porque as pessoas (incluindo os nossos alunos) são seres humanos, e porque precisam de música que contribua quer para o SER quer para o PERTENCER, elas descobrirão e criarão opções musicais para si próprias, com ou sem escolas, corpos governamentais ou professores de música, se for caso disso.

Como professores de música, podemos ser defensores mais poderosos para os recursos da comunidade se concentrarmos a nossa defesa no apoio da especialização musical nos nossos alunos – competências eficazes, capacidades cognitivas alargadas, valores bem considerados, e experiências musicais vibrantes. A primeira prioridade dos professores de música é criar nos alunos uma especialização musical que seja poderosa, libertadora, criativa e madura, de modo a que eles possam contribuir para as suas próprias culturas musicais. A segunda é ser defensores naquilo que os nossos alunos precisem para isso acontecer, e na era actual, isso inclui a diversidade musical.

Como defensores, os professores de música não devem preocupar-se se ela é importante e maravilhosa: devemos simplesmente assumir isso e retirar forças dessa assunção. Então, poderemos sensibilizar a próxima geração para a valiosa vida musical dentro e para lá do seu tempo e espaço, ensinando os nossos alunos de forma poderosa e melhorando os recursos musicais da sua comunidade, porque os nossos alunos precisam de bons recursos para crescerem musicalmente. Se fizermos isto convenientemente, o futuro será mais musical onde quer que estejamos.

Os nossos alunos tornar-se-ão pais e líderes que criarão vidas musicais saudáveis nas suas famílias e nas comunidades do futuro.

 
Menina tocando guitarra

Menina tocando guitarra