Poemas para pensar

Francisca com instrumento de frasco e tampas

Poemas para pensar

Ler e ouvir poesia cultiva o gosto pela estética literária e amplia o vocabulário. A poesia na infância é um portal para a sensibilidade e a descoberta linguística. Ao recitar, a criança explora a musicalidade das palavras, o ritmo e a rima, o que fortalece a memória e a dicção de forma lúdica. Mais do que entretenimento, o poema estimula o pensamento crítico e a abstração, permitindo que os mais novos organizem emoções e compreendam o mundo através de metáforas.

Circo

No circo cheio de luz
Há tanto que ver!…
“Senhores!”
– Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores –
“Entrai, que não custa nada!
À saída é que se paga…”
(…)
O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo á multidão.
Ri, palhaço!
Corpo de borracha e aço
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir! (…)

José Régio, As Encruzilhadas de Deus ]

Cravo

Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo,
– mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo,
– mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir,
– mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade ]

Jarrinho e tostão

Levava um jarrinho
Para ir buscar vinho.
Levava um tostão para comprar pão
e levava uma fita para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro para o chão.
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita…
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho
nem fosse buscar vinho
nem trouxesse a fita para ir bonita
nem corresse atrás
de mim um rapaz
para ver o que eu fazia
nada disto acontecia.

Fernando Pessoa ]

Liberdade

Quem a tem…

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondendo tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber,
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena

Mãe

Só por isso, mãe

Mesmo que a noite esteja escura,
Ou por isso,
Quero acender a minha estrela.

Mesmo que o mar esteja morto,
Ou por isso,
Quero enfunar a minha vela.

Mesmo que a vida esteja nua,
Ou por isso,
Quero vestir-lhe o meu poema.

Só porque tu existes,
Vale a pena!

Lopes Morgado, Mulher Mãe ]

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa ]

Máscara

Parei
Espreitei
Entrei
Comprei
Saí
Subi
Abri
Sorri
Peguei
Coloquei
Ajeitei
Desci
Apareci
Rugi
E ri
Um leão!
Que aflição!
Mas não!
É o João.

Maria Cândida Mendonça ]

Ninho

Segredo

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga, Diário VIII ]

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem neve
ou se tem neve e não se tem chuva!

Ou calço a luva e não ponho o anel,
ou ponho o anel e não se calça a luva!

Ou subo ao céu e não fico no chão,
ou estou no chão e não subo ao céu.

É uma pena que eu não consiga
‘star em dois sítios ao mesmo tempo!

Guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Isto ou aquilo: e vivo escolhendo
todo o dia e toda a vida!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio a correr ou se fico tranquilo.

É tão difícil saber com certeza
o que é melhor, se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles ]

Para ser grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis ]

Patas

Caminhada

Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.

Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.

E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.

Sidónio Muralha ]

Professor

Professor diz-me porquê?
Porque voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Porque roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
e roda gira rodopia
e cai morto no chão…
Tenho nove anos professor
E há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Porque é que o céu é azul?
Porque é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Alice Gomes ]

Sonho

Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos ]

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade ]

Francisca com instrumento de frasco e tampas

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Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

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