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ABC de animais com ritmo

As palavras têm ritmo. E quando música e poesia jogam uma com a outra, chegam a criar ritmos e sonoridades que dispensam notação.

Em “ABC de animais com ritmo”, os jogos de palavras destacam a importância da biodiversidade e o respeito pela natureza. São um serviço à Língua e suscitam o gosto pela rima, encaixando na aprendizagem das letras e em casos de leitura. Funcionam como sílabas rítmicas bem-humoradas e prestam-se a acompanhamentos rítmicos criativos.

Situam-se algures entre provérbios, trava-línguas, lengalengas e sílabas rítmicas de Kodály. Boa parte deles promovem jogos de palmas em pares, copos, imitação, sorteamento, cadeiras, estátua, caçadinha e outros.

São especialmente indicados para o 1º Ciclo do Ensino Básico e refletem uma parte da filosofia pedagógica Meloteca no contexto da Expressão Musical.

(António José Ferreira)

A

Albatroz, albatroz,
voa como os seus avós.

Alcatraz ou gaivotão,
comes peixe, sim ou não?

Avestruz, avestruz,
corre, corre, avestruz.

(para imitar)

B

Bacalhau, bijupirá,
bate-bico, biguá.
Quem estuda, aprende,
quem trabalha, saberá.

(para jogar)

ABC de animais com ritmo, créditos José Luiz Santos

ABC de animais com ritmo, créditos José Luiz Santos

Baiacu, baiacu,
baia, baia, baiacu.

Baiacu, sapo-do-mar,
peixe-balão, ou fugu!

Beija-flor, beija a flor,
beija, beija, beija a flor.

Bem-te-vi, eu vi,
quando andavas por aí.

C

Cachalote e camarão
é do mar que eles são.

Cachalote, olha o filhote,
e não vires o meu bote!

Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração) e dinamiza atividades em colónias de férias com crianças. Apresenta-se nas áreas da educação e da sustentabilidade em festivais.

Saiba mais na Reciclanda e contacte-nos:

António José Ferreira:
962 942 759

Cágado e camaleão
algum dia saberão
de que terra são?

Canguru, canguru,
salto eu, depois és tu!

(para jogar com saltos)

Caracol, caracol,
tem cuidado com o sol.

(para jogar com concha)

Cascavel, cascavel,
casca, casca, cascavel.

Cascavel traz sempre um guizo
para usar se for preciso.

(para jogar com guizeira)

Chimpanzé-comum,
como tu não há nenhum.

(para jogar à imitação)

É inseto o cupim,
com as asas faz assim.

(para jogar à imitação)

D

O damão e o dodô
fazem como fez o avô.

Dançador-laranja,
quem te alaranjou?
– Foi um grande artista
que aqui passou.

(para jogar às cores)

Dançador-laranja, ABC de animais com ritmo, créditos Rudimar Narciso Cipriani

Dançador-laranja,
créditos Rudimar Narciso Cipriani

Dançarino, dançador,
canta e dança com amor.

(para jogar à estátua)

Dançarino, abre a asa,
leva a fêmea para casa.

Degolado ou degu,
diz qual deles és tu.

Dorme Dário, o dromedário.
Dorme, dorme, dorme Dário.

E

Estorninho e esturjão,
um é peixe, o outro não.

Esturjão e estorninho,
diz qual é o passarinho.

F

Faisão, falcão, furão, quem são?

Fandangueiro, fandangueiro,
a dançar és o primeiro.

(para dançar com cadeiras)

G

Galo,
gamo,
ganso,
gato.

Ganso-patola, gaivotão-real,
alcatraz-comum, existe em Portugal.

Grilo,
grifo,
grou,
gnu.

Guaxinim, guará,
gavião, gambá.

Guaxinim, gambá,
Gavião, guará.

ABC de animais com ritmo, créditos Alex Popovkin

Gambá, créditos Alex Popovkin

H

Dlim, dlão, dlim, dlão,
Hiena
ri, hadoque não.

I

Itapema, iratim, iguanara, inhambu.
Treina a memória, diz agora tu!

J

Jabuti, jabiru,
jacaré, jacu.

Jararaca, javali,
joaninha, jabuti.

K

Kudu, kiwi,
kookaburra, kowari.
Passa um copo, passa outro
e já outro chega aqui.

(para jogos de copos)

L

Lagosta, lombriga,
qual é tua amiga?

É lagosta ou lombriga,
o que tu tens na barriga?

Lampreia e lacraia
não andam na praia.

Lagosta ou lampreia,
que venham à ceia.

M

Macaco, medusa,
morcego, merluza.

Mangangá, manatim,
Quem é mosca faz assim…

(para imitação)

Marta, marta,
vive farta.

N

Nandaia, nambu,
quem canta és tu!

(para sortear)

ABC de animais com ritmo, créditos Alex Popovkin

Nandaia, créditos Alex Popovkin

Narceja, narval.
Quem anda tão mal?

Nhacundá, niquim.
A narceja canta assim.

(para imitação)

Noitibó, noitibó,
canta para a minha avó!

Noitibó, nambu,
canta agora tu!

(para sortear)

O

Ocapi, ocapi,
oca oca ocapi.

Onça, orca, osga, ostra.

A otária, nada otária,
a nadar é extraordinária.

P

Perereca, peru,
pica-pau, pica tu!

(para sortear)

Polvo, pombo, porco, pulga!

Q

Quem-te-vestiu, quatimirim?
Quem-te-vestiu, assim?

ABC de animais com ritmo, quem-te-vestiu, créditos Fernando Jacobs

Quem-te-vestiu, créditos Fernando Jacobs

Quiriquiri, quero-quero, quatipuru, quetzal.
Quiriquiri não canta, quatipuru canta mal.

R

– Rana, rana cataplana,
cataplana, plana, plana.
– Vou atrás de quem?
– Vai atrás da ratazana!

(para caçar)

Rena, rato, raia,! Rena, rato, raia, rã!
Rena, rato, rena, rato, rena, rato raia, rã.

rouxinol, rouxinol,
canta na clave de sol.

S

Sabiá, sabiá,
voa aqui, voa acolá.
Sabiá, voa aqui,
sabiá voa acolá!

Sabiá, sagui,
seriema, siri.
Sabiá, sabiá,
sabiá, sagui.

Salamandra, salmão,
sanguessuga, sardão.
Salamandra, sanguessuga,
salmão, sardão.

Suricata, surubi,
sanguessuga, sagui.
Sanguessuga, sanguessuga,
sanguessuga, surubi.

Surucucu, sagui, salamandra, siri.
Salamandra, sagui, surucucu siri.

T

Dançando, tangará, dançando,
dançando, tangará, dançou.
Dançando, tangará, dançando,
dançando também eu lá vou.

(para dançar cadeiras)

Tangará, tangará
que bem danças, dança cá.

(para agrupar)

Tangará, o dançarino,
aprendeu em pequenino.

Téu-téu, sobe ao céu,
vê se avistas o chapéu!

(para jogar)

Tico-tico, tatuí,
tartaruga, tucuxi.
Se tu tocas, se tu danças,
vem apresentar-te aqui!

(para agrupar)

Tico-tico, tubarão,
tartaruga, tritão.

Tico-tico, tororó,
és igual à tua avó!

(para imitar)

Tangará-dançarino

Tangará-dançarino

U

Uacari, urubu,
unha-longa, urutu.

Uacari, urubu,
unha-longa és mesmo tu.

(para sortear)

V

É verdinho ou verdelhão,
é peixinho ou não?

W

Wombat, wombat,
wom wom wom wom wom wombat.

Wombat, ABC de animais com ritmo

Wombat

X

Ximburé, xajá,
vem viver p’ra cá!

Ximburé, xangó,
fazem como a avó.

Ximburé, xexéu,
traz o meu chapéu.

(para jogar)

Ximburé, xuri,
vem brincar aqui!

(para agrupar)

Y

Ynambu, nambu,
voa ele e não tu.

Ynambu, ABC de animais com ritmo

Ynambu

Z

Zabelê, zaragateiro,
Só um deles quer dinheiro.

Zebra, zarro e zebu,
diz qual deles és tu?

(para imitar)

Zombeteiro ou zorrilho,
só um deles é teu filho!

Zorrilho, ABC de animais com ritmo

Zorrilho

António José Ferreira

www.lojameloteca.com

Poemas para pensar

Ler e ouvir poesia cultiva o gosto pela estética literária e amplia o vocabulário. A poesia na infância é um portal para a sensibilidade e a descoberta linguística. Ao recitar, a criança explora a musicalidade das palavras, o ritmo e a rima, o que fortalece a memória e a dicção de forma lúdica. Mais do que entretenimento, o poema estimula o pensamento crítico e a abstração, permitindo que os mais novos organizem emoções e compreendam o mundo através de metáforas.

Circo

No circo cheio de luz
Há tanto que ver!…
“Senhores!”
– Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores –
“Entrai, que não custa nada!
À saída é que se paga…”
(…)
O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo á multidão.
Ri, palhaço!
Corpo de borracha e aço
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir! (…)

José Régio, As Encruzilhadas de Deus ]

Cravo

Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo,
– mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo,
– mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir,
– mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade ]

Jarrinho e tostão

Levava um jarrinho
Para ir buscar vinho.
Levava um tostão para comprar pão
e levava uma fita para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro para o chão.
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita…
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho
nem fosse buscar vinho
nem trouxesse a fita para ir bonita
nem corresse atrás
de mim um rapaz
para ver o que eu fazia
nada disto acontecia.

Fernando Pessoa ]

Liberdade

Quem a tem…

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondendo tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber,
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena

Mãe

Só por isso, mãe

Mesmo que a noite esteja escura,
Ou por isso,
Quero acender a minha estrela.

Mesmo que o mar esteja morto,
Ou por isso,
Quero enfunar a minha vela.

Mesmo que a vida esteja nua,
Ou por isso,
Quero vestir-lhe o meu poema.

Só porque tu existes,
Vale a pena!

Lopes Morgado, Mulher Mãe ]

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa ]

Máscara

Parei
Espreitei
Entrei
Comprei
Saí
Subi
Abri
Sorri
Peguei
Coloquei
Ajeitei
Desci
Apareci
Rugi
E ri
Um leão!
Que aflição!
Mas não!
É o João.

Maria Cândida Mendonça ]

Ninho

Segredo

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga, Diário VIII ]

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem neve
ou se tem neve e não se tem chuva!

Ou calço a luva e não ponho o anel,
ou ponho o anel e não se calça a luva!

Ou subo ao céu e não fico no chão,
ou estou no chão e não subo ao céu.

É uma pena que eu não consiga
‘star em dois sítios ao mesmo tempo!

Guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Isto ou aquilo: e vivo escolhendo
todo o dia e toda a vida!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio a correr ou se fico tranquilo.

É tão difícil saber com certeza
o que é melhor, se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles ]

Para ser grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis ]

Patas

Caminhada

Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.

Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.

E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.

Sidónio Muralha ]

Professor

Professor diz-me porquê?
Porque voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Porque roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
e roda gira rodopia
e cai morto no chão…
Tenho nove anos professor
E há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Porque é que o céu é azul?
Porque é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Alice Gomes ]

Sonho

Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos ]

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade ]

Francisca com instrumento de frasco e tampas

Francisca com instrumento de frasco e tampas

Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

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Poemas de natureza

Aranha, anha

[ Ladainha da aranha ]

Aranha, anha
tão muda e mole
teu fio da lua
soluça ao sol.

Aranha, anha
que ninguém ama
teu fio de lua
é a tua cama.

Aranha, anha
de noite e dia
teu fio de lua
ninguém o fia.

Aranha, anha
que o mundo mata
teu fio de lua
ninguém desata.

Matilde Rosa Araújo ]

É importante aproximar a poesia das crianças, desde cedo, com benefícios a nível da fala e do vocabulário, bem como referir junto das crianças a importância dos escritores e poetas e lembrá-los pelas estórias e poemas.

Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 20 de junho de 1921 – Lisboa, 6 de julho de 2010) foi uma escritora portuguesa especializada na literatura infantil. Entre muitas outras obras escreveu O Cantar da Tila (poemas para a juventude, 1967), e O passarinho de Maio (literatura infantil, 1990).

Aranha

Aranha

Sugestões

O professor apresenta o texto no quadro interativo ou escreve-o em outro quadro. Declama o poema com expressividade e apresenta a vida da autora. Desafia um ou mais voluntários para recitarem.

O poema pode ser acompanhado com percussão corporal com dois níveis, mãos nas pernas e palmas, por exemplo. Na sua vez, as crianças podem sugerir outras formas de acompanhamento rítmico.

Podem fazer-se jogos com uma aranha que vai passando de mão em mão. Quando o poema termina, a criança que tem a aranha vai para o meio, e assim sucessivamente.

Estando as crianças à volta de uma mesa, o poema pode ser dito com a ponta dos dedos na beira da mesa e mãos nas pernas, ou mãos alternadas na mesa.

A criação de maracas eficazes e resistentes é muito fácil com tampas de amaciador de roupa. As crianças podem criar o seu próprio instrumento e acompanhar com estas maracas, projetando-as para a frente, em cima e em baixo.

Bate a chuva

[ Canção da chuva ]

Bate a chuva, tic… tic…
nas vidraças da janela.
Canta a chuva, tic… tic…
Que linda canção aquela!

Tic… tic… tic… tic…
Que linda canção aquela
de meninas ao despique:
— Qual de nós será mais bela?

Meninas a fazer meia
com as nuvens de novelo,
nenhuma delas é feia!
Tic… tic… tic… tic…

Tenho um medo que me pelo,
que alguma delas me pique.

António de Sousa ]

Sugestões

O professor declama calmamente o poema. Da segunda vez, desafia as crianças para que o acompanhem fazendo sons que considerem adequados ao tema.

Em seguida, apresenta o pau de chuva e oscila, para a direita e para a esquerda, para baixo e para cima. Cada criança poderá experimentar também, em pé.

Finalmente, apresenta também umas clavas reutilizadas, que dobrarão a onomatopeia “tic”.

Na segunda ou terceira sessões, as crianças recitarão todo o poema com acompanhamento de sons vocais e instrumentais.

Instrumento sugerido

Especialmente indicado para acompanhar este poema, o pau de chuva é um idiofone, isto é, um instrumento musical em que o próprio corpo produz o som. Tem formato cilíndrico alongado. É um instrumento de percussão de altura e ritmo imprecisos próximo do que se chama ruído. Em algumas regiões do mundo, o pau de chuva é decorado com símbolos indígenas e marca presença em cerimónias religiosas. São desta família diversos instrumentos africanos, alguns formados por um corpo com uma malha de fios e contas.

O pau de chuva dá algum trabalho mas não é difícil de fazer em casa. Arranje um tubo de cartão comprido e uma sovela de metal. Faça furos de modo a poder inserir palitos em posições diferentes ao longo do tubo. Os palitos vão obrigar o arroz (que depois será colocado) a cair lentamente, imitando o som da chuva.

Depois de colocados os palitos, deverá colocar em cada extremidade uma tampa metálica de garrafas de sumo, por exemplo. Com algodão colado na parte de dentro, para que depois não se oiça um som metálico do arroz a cair na tampa.

António José Ferreira ]

Borboleta verde

Borboleta verde
Aqui não há flores.
— Procuras nas pedras
jardins interiores?

Borboleta verde,
aqui não há zumbidos.
— Procuras nas pedras
perfumes dormidos?

Borboleta verde,
aqui não há calçadas.
— Procuras nas pedras
as flores geladas?

Borboleta verde
chama quase morta.
— Também eu, também
aos tombos nas pedras
não encontro a porta.

José Gomes Ferreira ]

Caquerá-cá-cá!

— Caquerá-cá-cá!… Caquerá-cá-cá!…
Minha ama, venha já,
pus ovo, rico ovo,
saiba-se no povo.
Cuidado com a vizinha,
é esgorjada e cainha!
— Caquerá-cá-cá!… Caquerá-cá-cá!…
Senhora, onde está?
Ronda a fuinha por aqui,
pai galo não olha por mi!,
Caquerá-cá-cá!… Caquerá-cá-cá!…
Minha ama, venha já,
desta vez, custou-me muito,
traga-me migas de unto,
senão eu deixo de pôr,
já consultei um doutor;
escravas já não há,
Caquerá-cá-cá!… Caquerá-cá-cá!…

Aquilino Ribeiro ]

Cão

Conheci um cão
Que falava
Que escutava
Que cantava
Que brincava
Que ladrava
Que fazia o pino
E que era um grande dançarino.
Que jogava à bola
Que perdia
Que ganhava.
Que estudava
E que andava
Comigo na escola.
E que tal?
Era ou não
Uma perfeição de cão?
Não acreditam?
Fazem mal.
Era um cão
De imaginação…

Maria Cândida Mendonça, O Livro do Faz-de-Conta

Cão D. Pantaleão

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão…
– Tenho um barbeiro e uma criada, um casaco e uma almofada!
– E eu cá não tenho nada!
– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão…
– Tenho uma casa aquecida, boa cama e comida!
– Não é lá muito boa a minha vida…
– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão…
– Tenho sombrinha e cachecol, luvas e chapéu mole!
– Eu cá tanto ando à chuva como ao sol.
– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão…
-Tenho uma coleira amarela,
que parece uma estrela!
– Mas eu cá não gosto da trela!
– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão…

José Barata Moura ]

Chuva

Espanto

Uma gota de chuva
suspensa de um telhado.
Dá-lhe o sol e parece
pequena maravilha.
É um berlinde, dizem
crianças entre si.
É uma bola, e bela,
mas não rebola, brilha!
É a Lua? Uma bolha
de sabão de brincar?
Um balão? Um brilhante
de uma estrela vaidosa?
Diz a velhinha olhando:
Quem chorou esta lágrima?
Uma gota de chuva
Suspensa de um telhado:
Chegou uma andorinha
engoliu-a e voou.

Maria Alberta Menéres ]

Chuva, porque cais?

Chuva, porque cais?
Vento, porque vais?
Pingue, pingue, pingue
Vu… vu… vu…
Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Cai de mansinho.
Pingue, pingue, pingue
Vu… vu… vu…
Que canto tão frio,
Que canto tão terno
O canto da água,
O canto do Inverno…
Pingue, pingue, pingue
Vu… vu… vu…

Matilde Rosa Araújo ]

Mar

História do Sr. Mar
Deixa contar…
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda…
Com muita onda…
E depois?
E depois…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
Ondinha vai…
Ondinha vem…
E depois…
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe…

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila ]

Rola

O canto da rola rola
Rola com saudade tanta…
– Ó rola, que cantas tu?
E a rola responde e canta:
-Trru, trru.. trru, trru…

O canto da rola geme…
Parece o vento passando.
– Ó rola, que cantas tu?
E a rola diz-nos, cantando:
-Trru, trru.. trru, trru…
-Trru, trru.. trru,trru…

Afonso Lopes Vieira ]

Primavera

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Alberto Caeiro [ Fernando Pessoa ]

Peixinho

O peixinho
Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.
Sabia os sítios seguros
onde os maiores e os mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.

E continuava a viver.

Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.

Alice Gomes ]

Pulguinha

A pulguinha dançarina
Uma menina tinha um cão que tinha
uma pulga no focinho
O nome da menina era Gisela
O cão chamava-se Piloto.
Só a pulguinha
não tinha
um nome
que fosse pequenino como ela.
Quando a menina cantava
e o cão Piloto ladrava
a pulguinha
que havia de fazer ela?
Como não cantava nem ladrava
a pulguinha
dava pulos e dançava.
Foi por isso que a menina
mais o cão dela que tinha
uma pulga no focinho
que dava pulos, dançava
apesar de pequenina
lhe puseram
o nome de dançarina.

António José Forte

Vento

Baixinho

Eu gosto de te ouvir, oh Vento!
Mas não andes agora a ramalhar
ao pé de mim.

Um só momento, Vento, sossegado!
Deixa-me aqui afogado
no silêncio da mata…

Porque eu sinto a minh’alma a querer falar;
Porém tão em segredo fala ela
que, se continuas, Vento, a ramalhar,
não consigo entendê-la…

Sebastião da Gama ]

Reciclanda, música e poesia para um mundo melhor

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